A euforia da segunda-feira
Segunda de manhã todo mundo abre o chat, faz três perguntas, se impressiona e manda print no grupo. Quarta já esfriou. Sexta ninguém abriu.
Não é preguiça e não é a ferramenta. É que ninguém transformou aquilo em trabalho. Ficou como brinquedo, e brinquedo a gente larga.
Vi esse filme umas trinta vezes, dentro de casa e em cliente. As travas se repetem tanto que dá pra listar.
Trava 1 — começaram por doze coisas ao mesmo tempo
Atendimento, post, e-mail, planilha, contrato, roteiro, relatório. Nada chega ao fim, ninguém consegue medir e a conclusão vira um genérico "não funciona pro nosso negócio".
Escolhe uma tarefa. Uma. De preferência a que se repete toda semana, toma tempo de gente cara e não exige julgamento fino. Proposta comercial, resumo de reunião, resposta de primeiro contato, relatório de campanha. Essas.
Trava 2 — a coisa não tinha dono
"A empresa vai usar IA" não é responsabilidade de ninguém. Precisa de nome e sobrenome, com uma hora por semana no calendário pra cuidar daquilo: ajustar instrução, olhar o que saiu errado, ensinar quem chegou depois.
Sem dono, na primeira saída ruim o time volta pro jeito antigo e ninguém reclama, porque o jeito antigo pelo menos alguém sabe fazer.
Trava 3 — não existia processo pra automatizar
Muita empresa descobre, na primeira semana, que não sabe descrever o próprio processo. Como se faz uma proposta aqui? Depende de quem faz. Qual a regra de desconto? Depende do dia e do humor.
IA não organiza empresa bagunçada. Ela só faz a bagunça acontecer mais rápido — inclusive o erro.
Se você não consegue escrever o passo a passo em uma página, o problema não é de IA, é de processo. A boa notícia é que escrever essa página já melhora a operação, mesmo que você não ligue nada depois.
Trava 4 — não definiram o que era sucesso
"Ficou melhor" não é resultado. Resultado é: a proposta que levava quarenta minutos passou a levar oito. O primeiro contato que era respondido em três horas passou a ser respondido em quatro minutos. O relatório que consumia um dia inteiro agora sai em vinte minutos, com mais detalhe.
Escolhe um número antes de começar e anota ele num lugar que você vai reabrir. Sem isso, no fim do mês a discussão vira gosto pessoal, e gosto pessoal sempre perde pro hábito antigo.
Trava 5 — não escreveram nada
O prompt bom ficou na cabeça de uma pessoa, numa aba que ela fechou. Na semana seguinte ninguém reproduz o resultado, e a impressão que fica é que a IA piorou.
Um documento por tarefa, curto: o que a IA deve fazer, com qual informação, em que formato de saída, e três exemplos do que é considerado bom. Quando o resultado sai torto, você corrige o documento, não a pessoa. É a diferença entre treinar um processo e brigar com o time.
Uma primeira semana que costuma ficar de pé
- SegundaEscolher uma tarefa e apontar o dono. Duas decisões, meia hora.
- TerçaEscrever em texto como a tarefa é feita hoje, do jeito que é. Uma página, sem enfeite.
- QuartaRodar com IA e humano conferindo tudo, sem exceção. Anotar cada erro.
- QuintaCorrigir a instrução com base nos erros de quarta. Rodar de novo.
- SextaMedir contra o número que você anotou e decidir: mantém, ajusta ou descarta.
Cinco dias, uma tarefa, um dono, um número. É devagar de propósito. É assim que a coisa continua rodando na semana seguinte sem ninguém empurrar.
A segunda semana é o teste de verdade
Se na segunda semana a tarefa continuou acontecendo sem lembrete, você tem uma máquina pequena funcionando. Aí — e só aí — escolhe a segunda tarefa.
Empresa que faz isso doze vezes no ano termina com doze processos rodando e um time que confia no método. Empresa que tenta doze de uma vez em janeiro termina o ano contando pros outros que testou IA e não era pra ela.
Israel Philipex · IAX